Depois de anos a querer preencher cada espaço do meu dia com coisas, reparo que valorizo muito mais o tempo desocupado.
O tempo preso ao sofá.
O tempo enrolada naquele enredo.
O tempo aninhada com a Lua.
O tempo morto comigo mesma.
Ainda que estes momentos se transformem num encontro aos meus pensamentos mais destruidores, é ao debruçar-me sobre eles que lhes dou a atenção que eles merecem para serem, depois, encaixotados.
Sento-me à mesa com esses adjetivos que atribuo a mim mesma e questiono onde está o ganho de apontar cada defeito que deteto sempre à velocidade da luz.
Obrigo-me a reavaliar quem sou e a colocar doçura nesse encontro ao espelho.
De cara lavada por finalmente aceitar fazer as pazes com a máquina que me permite pensar, escrever e dar a mão, passo também a recusar os convites semanais de ódio que habituei o meu corpo a fazer a si mesmo.