Gostava de me lembrar como é que foi.
Sabem sempre qual é a primeira palavra que sai da nossa boca mas nunca se lembram da primeira vez que identificamos um som; que o associamos a algo mais.
Terá sido o barulho do piscar das luzes da árvore de natal?
Ou o zumbido de uma abelha que se colou à minha orelha?
Ou até o som da papa a ser envolvida com a colher de pau?
Seja a junção de cores, o movimento dos animais ou o som da fome, gostava de saber. De o ouvir como se nunca o tivesse escutado.
Hoje, valem-me os novos discos.
Preparo essa refeição com cuidado.
Guardo os afazares.
Ponho a escuta ativa na mesa.
E vagueio por esse oceano que o artista me quer levar; ou aonde ele acha que acabaremos por parar.
Nunca sei qual é o destino. Sei que sou levada por uma corrente superior, que não conduzo este barco.
Sei que acabo desfeita, como se tivesse feito a travessia a nado.
Mas amanhã volto sempre a aventurar-me; e novamente, mesmo já tendo experimentado esse sal, escolho deixar a boia no cais.