A ti, V

Ficavas sempre demasiado tempo a olhar para o frigorífico aberto.

Não sei em que pensamento é que te perdias, mas eventualmente lá tiravas as cenouras.

Uma tarefa que poderia ser terminada rapidamente, mas que no teu caso acabaria sempre por demorar o dobro do tempo por quereres que o corte ficasse geometricamente homogéneo.

Achavas sempre que havia tempo, por isso prolongavas todas as ações até saíres finalmente de casa, acabando invariavelmente por te atrasares para qualquer encontro.

Cantávamos muito; Silence 4. Eddie Vedder. Ou músicas que eram fruto da nossa imaginação, como “Saints in the sky because of the sand.”

Foram muitas as vezes que espreitei pela janela do escritório e te vi do outro lado da rua, onde tiveste o grande privilégio de ver o meu avô a fazer agachamentos e de o ouvir a falar sobre a viagem que fez por Portugal de mota.

Gravitava sempre na tua direção quando a sala estava cheia dos nossos e agora é neles que te continuo a encontrar.

Nem é que tente procurar, naturalmente estás presente nos nossos fins de tarde nas Virtudes ou no café que não bebias no Preguiça.

Ainda apareces nos meus sonhos; aproveito os dois segundos em que a realidade ainda se mistura com a fantasia e prendo-me a esse quadro.

Nesse mundo paralelo, é possível atrasar todos os relógios. Congelar a ampulheta. Pedir ao tempo que deixe de obedecer a si mesmo. 

No mundo real, a dor da ausência testemunha o amor que guardamos por ti. 

É verdade que a saudade não encolhe, mas ao menos acompanha a dimensão da ternura que mora por aqui.

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