Viagem Oriental

As mulheres, habituadas a carregar as dores dos outros e a varrerem as suas para um canto, ficam surpreendidas ao descobrir que não somos casadas e que ninguém nos impõe a obrigatoriedade de deixarmos descendência no mundo.

Já nos cumprimentam curvadas, cientes que é tão metafórico quanto palpável o desnível que nos separa. Elas desdobram-se em agradecimentos e nós também, conscientes do privilégio que é nascer onde tivemos tempo para sermos crianças.

Também são as mulheres que preparam as oferendas com arroz, incenso e flores embrulhadas em folha de bananeira que são colocadas à porta de todos os estabelecimentos na manhã seguinte, cumprindo um ritual que alimenta os deuses maus para se manterem entretidos e que agradece e preza a presença assidua dos bons.

Em Pangkor, foi uma rapariga que nos levou até ao hotel para regressarmos a Kuala Lumpur. Mal percebou que estávamos com pressa, aceitou levar-nos também até à camioneta e no fim da viagem não aceitou o nosso pagamento. Como se a nossa pressa fosse mais valiosa do que o cuidado dela em certificar que chegávamos a horas à paragem.
Não é.

Já noutra viagem que nos parecia perdida, o senhor que nos conduziu até lá assegurou-nos que iriamos chegar a tempo mas que teria de andar mais rápido. “Não se importam?”, e lá deu 100km/hora.
Chegamos a tempo.

No aeroporto de Bali, fomos recebidos pelo Dedok que apontava para nós com um sorriso aberto e com a mesma simpatia que acabamos por encontrar em todos os retalhos da Indonésia.

Em Nusa Lembongan, a dúvida em percebermos onde apanhariamos o ferry ficou resolvida com uma chamada em balinês e uma boleia de scooter.

Já noutra viagem em que ficamos presos no trânsito, o taxista pede à senhora que está do outro lado da rua 5 peças de frango frito, já a contar que o petisco seria partilhado connosco.

Em Seminyak, por recomendação da senhora que trabalhava no restaurante onde jantamos, comemos os melhores brócolos da nossa vida.

As idas ao supermercados eram sempre viagens sensoriais que nos aguçavam a curiosidade de experimentar novos sabores.

Já no fim da viagem, percebemos que tudo leva mesmo picante; até o que não leva picante. E que toda a gente deveria experimentar roti canai, um pão elástico e crocante que já deixa saudades.

A familiaridade com o mar e a calma com o que relógio passa em Pangkor.
O tempo que ficou parado em Nusa Lembongan, banhado com a água mais azul que já vimos.
A tranquilidade de Uluwatu.
A vida a brotar com resistência em Penang.

Mas também:

A tristeza de perceber que aquele miúdo que me serviu o jantar nunca terá a possibilidade de conhecer outra realidade.

A tentativa de apatia falhada sempre que via um cão que só queria uma casa.

O sentido de injustiça que se mistura como água e azeite na felicidade por termos tido a possibilidade de estar lá.

E até os nossos contrastes, que tão bem se fundem para estas aventuras:

A Sofia à sombra. Eu à procura do último raio de sol.
A Sofia a colecionar conchas. Eu a colecionar mergulhos.

A Sofia com desarranjo intestinal à terça, eu à quarta.

Terima kasih. 李

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