Quando é que os mortos deixam de celebrar o seu aniversário? Quando é que os mortos deixam de ser celebrados?
Torço para que a resposta seja: nunca. Temos, à nossa maneira, feito por isso.
Quando o dia 28 espreita no calendário, a primeira onda é de tristeza. Segue-se uma onda mais calma de surpresa, como se, por segundos, descobríssemos pela primeira vez que já não estás cá.
O mar acalma.
A maré desce.
O turbilhão fica para amanhã.
Esse amanhã desperta.
Aceito a minha natureza profundamente emocional e choro, ciente de que isso tornará esta maré cheia.
Enche-se de memórias que me esforço por registar, com medo que escapem pelas ondas.
Enche-se de fotografias que partilhamos entre nós, de “lembras-te quando…” que vamos revezando, cientes de que essas são as provas metafísicas de que estás e és presente.
Ainda nessa ida ao mar, onde deixaste a tua marca terrestre, levamos os joelhos à areia e miramos o infinito ao longe: era essa a quantidade de tempo que achávamos que nos restava uns com os outros.
Pensar na nossa mortalidade é chato, e fugimos disso com distrações. Há uns dias falei de ti, e sugeriram que registasse em vídeo como gostaria que fosse o meu funeral.
Sabemos sempre qual é o prato preferido dos nossos amigos. Aquela peça de roupa que seriam incapazes de ter no armário. O maior sonho da vida deles.
Mas não sabemos de que forma querem que o ritual de despedida seja feito.
Perguntem, gravem, guardem esses registos. Há beleza em decidir como queremos aceitar esse parágrafo, essa ausência física do planeta. Em sabermos que era assim que fazia sentido para quem partiu, por mais estapafúrdio que nos pareça o plano.
Hoje consigo perceber que o tempo está do nosso lado. Porque, com o tempo, a dor já não imobiliza.
Dói, mas já caminhamos. Continua a pesar, mas já conseguimos almoçar. É o mesmo nó na garganta, mas desfaz-se com mais facilidade.
Gosto de falar de ti. Gosto que me perguntem sobre ti. É assim que garanto a tua estadia por cá.
Quem é o Vasco? Quem é este melhor-amigo?
O Vasco é; presente.
Quando o adjetivo, não caio na rasteira da conjugação do verbo nesse tempo que se aloja no passado.
O Vasco é; presente.
Vive na forma como me lembro de não apressar o ato de fazer a cama, de como podia ter mais brio nessas tarefas que me deixam impaciente. No jeito como puxa conversa com desconhecidos. Nas músicas em que a melodia da sua voz se faz ouvir.
Hoje, não é só em datas específicas que te celebramos. É quando escolhemos rir de ti. É quando recordamos alguém que faz tudo devagar, o que profundamente nos enerva. É quando entramos numa confeitaria e há ovos moles na montra.
É no corriqueiro que vives. É aí que fazemos a festa.
E assim perduras, grande, insubstituível, eterno e tão-meu amigo.