Vou buscar o café da minha avó à mesma loja onde ela descobriu que o café moído na hora sabe melhor do que qualquer cápsula que o contenha.
A cada par de meses, o pedido repete-se: três quilos em sacos pequenos de 500 gramas. Mistura da melhor, para máquina de tarracha.
A senhora pergunta sempre se é para a minha avó e manda-lhe um beijinho, ainda que já não se lembre dela.
É nestes espaços que a humanidade se firma. É nestas conversas de fregueses, que fazem questão de ir lá beber o seu café, que a comunidade persiste.
Tenho a certeza de que aqui o café sabe melhor. E lá em casa da avó, é sempre melhor do que qualquer máquina que me permita fazer um capuchino ou um matcha.
Porque sabe a casa. Sabe àquele sítio que resiste, onde o aroma do café nos conforta.
Já na estação de Ermesinde — sítio que visito várias vezes sem olhos de ver — reparei agora no sapateiro. Tem um cubículo feito à medida dele, com pedidos que se repetem diariamente: uma nova sola, cozer as alças, meter um novo tacão.
Disse-me que no dia seguinte já teria umas sandálias novas. Fez a conta de cabeça e guardou um papelinho com o meu nome.
Amanhã fui lá. E estavam prontas para continuar a caminhar por aí comigo.
Mãos que moem, mãos que remendam: gestos antigos que seguram o tempo.