a semana

Há semanas perfeitinhas, em que a maior chatice é ter de parar ali na bomba para abastecer.

Mas até isso me poderia atrever a romantizar e longe de mim vos querer maçar.

Esta semana foi um encontro constante comigo própria, com os meus horários, com a minha escolha de não ser rigida com o minuto seguinte, de conversa com os meus silêncios, de revisitar álbuns com o GPS a enviar-me por caminhos que desafiam qualquer pneu, com jantares a observar os outros (atividade que tanto gozo me dá), analisar que vinho escolhem para acompanhar a dourada, não torcer o nariz ao empregado que me diz “menina, só temos Sagres”, almoçar amêijoas à bolhão pato porque – pasmem-se com esta justificação – me apetece, comer a dose mensal recomendada de pão alentejano em apenas alguns dias, a maravilha que é encontrar sítios pela primeira vez e os explorar com a mesma magia que sentia em criança com tudo o que era novo (e era tanto), caminhar pelas vilas minutos antes do pôr-do-sol e achar linda a forma como a luz, agora dourada, ilumina a fachada da escola, entrar em todas as igrejas e capelas e encontrar no detalhe a beleza que lhe pertence, descer todas as escadinhas até estar perto o suficiente do sol a despedir-se e lá ficar até o último tom de rosa misturado com laranja perder a guerra para os tons mais escuros.

Voltar a subir até ao centro (resistindo, sempre, à banquinha dos colares e anéis) para encontrar uma tasca para jantar e mais uma vez observar a familia de cinco, o casal velhinho de dois, o viajante sozinho, a torneira que pinga sempre a cada três segundos, os trejeitos do senhor que acaba de me servir esta carne de porco à alentejana.

Deitar-me cedo, como o corpo me pede todos os dias e aqui simplesmente aceito e nem lhe ofereço grande luta. Devolvo com um despertar sem despertador, patrocinado pelo sol a entrar devagarinho pelas frinchas destas casas onde nunca pernoito mais do que duas noites, corro e perco-me pelas ruazinhas e aprecio a calma antes da ordem que pauta uma semana, procuro uma pastelaria onde perco mais tempo a decidir qual é o docinho que vou provar do que a degustá-lo e sigo para uma praia, algumas muito recomendadas, outras que me atraem pelo nome peculiar que lhes deram e mergulho muito. É ali que sou feliz, é uma sensação parecida com a dança, e que pena tenho de não nadar o ano todo. Leio, sempre um capítulo. De repente, uma ideia para um vídeo parvo. Aponto. Ou gravo logo. À tarde, uma nova praia. Quero acreditar que levo um bocadinho do sal de todas elas no meu corpo.

Não sei quando é que deixamos de reparar, mas quando o fazemos só vem à cabeça a frase do Saramago: “o mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.”

É fácil deixar que a realidade nos entorpeça, mas reaprender a notar é essencial. Eu já sabia que era nestas pequenices que estava o segredo, mas recordar essa máxima embalada numa onda sabe tão melhor.