então é hoje

Hoje vemos as mães, avós, tias, cunhadas, sobrinhas, filhas — mulheres — a ocupar o lugar central do Natal: o lugar invisível.

O seu posto é na cozinha e o turno é longo, muitas vezes prolongado para além do previsto, porque depois da confeção vem a limpeza. A mesa por pôr. O olhar atento a contar quantas colheres faltam. Os pratos que alguém terá de meter na máquina. A confirmação de que mais ninguém quer uma fatia de bolo.

A participação nos jogos e nas conversas é pautada por um ponteiro que vive dentro de todas elas. Sabem que, a cada quinze minutos, é certo que terão de confirmar se o menino tem frio, se o senhor precisa de mais um cobertor nas pernas, se a senhora já foi à casa de banho, se a sala está fria, se faltam guardanapos — entre outras micro-tarefas que parecem fazer parte do chip, mas que são apenas reflexos involuntários de décadas a assistir às mais velhas a desempenhar o mesmo papel, passado por gerações que já nem têm lugar à mesa.

Um brinde a todas elas: que, brutalmente e sem dó nem piedade, deixemos de servir os outros, esquecendo-nos de nós e reclamando o lugar a que pertencemos — o do não fazer nada, o do ócio, o do descanso, o de estar mais um bocado sem pensar no que se vai acumulando nos bastidores.

Que os papéis se invertam até ao equilíbrio.
E que eu esteja viva para o testemunhar.