O palco torna-se função, permanece passatempo ou fica extensão?
Estou em Esposende. Sinto-me de fora. Não devo estar em Esposende. Dizem-me que estou, mas este lugar é-me novo. Aqui, o som não mora. Como é que mora se eles não me veem? Será que é da distância? Estou assim num patamar tão mais acima deles? Há uma barreira sonora que me impede de fazer a leitura do que ouvem quando me veem.
Os meus pés estão presos a este chão que não calco. À minha frente, eles: não me ouso a olhá-los. Imagino os olhares de reprovação.
Esta não presta, manda vir o gajo de há bocado.
Quero sair, não pela imposição, mas por escolha. O problema é que o relógio me obriga a ficar mais cinco minutos ou não sou paga.
Ao voltar a esta memória, tenho receio que esteja deformada pelo trauma da falta de validação dos que pagaram bilhete.
A luz é muita; não vem de mim, nem tão pouco deles que ficaram baços depois da minha atuação. A luz é elétrica e está ali para me iluminar a face, impossibilitando a leitura dos rostos de reprovação. Nisos, agradeço-lhe.
Merda, o tempo está a passar e eles já decidiram que não gostam de mim através do voto de silêncio. Tentei a minha melhor piada e nem essa.
Mas a cola; a cola cola-me os pés e nem consigo chamar o próximo comediante.
Vou tentar humor físico. Resulta sempre. Uso as mãos. Sou palhaça à mercê da primeira fila. A palhaça que suplica por um riso, antes que o choro se instale no rosto que é visto por mais de cem pessoas.
Desisto, vou esconder as mãos. Vou encher a boca de nadas a ver se o tempo se apressa a terminar.
Olho para a Sofia à procura do único som que é bússola no meio deste nada. É ela: este riso, é ela. Não será de pena. Talvez de compaixão. Agradeço-lhe cá de cima com um olho que pisca. Mais tarde, desfaço-me em lágrimas desde mesmo olho esquerdo que me obriga a desembaciar o carro.
Acho que está na altura de largar o microfone. A luz está a piscar. Se bem me recordo, esse é o sinal do mundo do entretenimento. Saio, sem os cumprimentar. Sem exprimir o alivio que sinto pela despedida e com a certeza que cá não voltarei.
Peço-me para ficar, mas eu tornei-me em pressa de fugir. Largo o instrumento que amplifica a minha voz turva de insegurança.
O passado à minha frente: todos os “metes-me nojo”, todos os dias na preparatória de Ermesinde a ouvi-la colada ao meu ouvido.
Já viste bem os teus olhos? Tás a ouvir? Responde!
Hoje é o inverso, talvez seja a justiça de não ter feito as pazes comigo. Hoje sou eu que lhes exijo a resposta vestida a gargalhada que eles não estão dispostos a oferecer, hoje a validação fica no bolso e a vontade de desistir bate à porta.
Sou tanto ou mais cobarde por me deixar seduzir pelo impulso da inércia hoje como quando ficava passiva no 7ºano quando ela me cercava. Mas se ela me catalisou para esta vontade de ser amada por desconhecidos, se ela deixou a minha autoestima em carcaça para agora ser alimentada ao ponto de se manter em pé com ocasionais desmaios, não serei eu a dever-lhe um “obrigado”?
Não fossem as suas palavras cruéis, não teria forma de me compreender pouca. Imaginem: eu achar-me suficiente nunca me tornaria engraçada.
É sempre preciso ver as coisas com os olhos ligeiramente afundados no chão ou corremos o risco de nos acharmos altos. São sempre os altos que cospem na cabeça dos que têm o pescoço preso. E quando me passam o microfone, o movimento é sempre descendente.
O chão tem pó. O chão está aguado da água que cai do olho que pisquei à Sofia. Ficarei um ano sem palco. Mas quando volto, fico.
De volta à questão, mas com a vinda da resposta: o palco torna-se função pela estrutura que me exige, deixando assim de ser passatempo. É hora de ser imperadora desde nova realidade onde o sonho e a falta de assertividade na forma de o domar dá espaço a um novo paradigma de carreira.
Sou comediante.
Agarro essa nova forma de ser enquanto sujeito laboral, com toda a responsabilidade e seriedade que este salto exige.
Afinal, sempre estive em cima. Mas desta vez, o caminho está iluminado. O barulho é tanto que por vezes me engole. Mas estou guiada por esses sentidos, e pelo sentido que dá corpo a tudo isto:
Eu mando no meu destino.