De mim, para mim

Aprender a gostar dos meus olhos demorou. Lembro-me de ser miúda e não ter qualquer tipo de opinião sobre eles: existiam, como em todas as pessoas que eu via. Usava-os para esse mesmo fim — ver.

Na preparatória via muita coisa; não percebia muita coisa, também. Mas lá está, via. Lidava com situações que hoje têm mais nome e compreensão, como o bullying.

Via, todos os intervalos, a mesma miúda a chamar-me nomes por causa dos meus olhos. Eu era feia, eu era ganzada, eu deveria trocar de olhos, eu era um nojo.

Numa idade em que a autoestima raramente é cultivada (pelo contrária, é pontapeada), foi fácil percecionar que ela tinha razão: eu sou horrível.

Se por um lado eu até já tinha percebido isso, agora tinha a oportunidade de me focar em algo que era feio — os olhos.

Olhava-me ao espelho e reparava no quão grandes eram, no quão desproporcionais se tornavam em relação ao rosto. Estavam demasiado saídos para fora, parecia que queriam saltar. Quem me dera ter uns olhos normais; uns olhos que passassem despercebidos.

Durante dois anos a realidade era esta. Nunca fiz queixa dela. Nunca achei que fosse uma situação preocupante ao ponto de avisar os pais ou professores.

Aprendi a perceber que era feia. Não era algo que me transtornasse ao ponto de chorar todas as noites.

Ela parou mas a adolescência chegou e mata da mesma forma. Chegam as borbulhas, as ancas, um rabo que nunca tinha visto.

Percebi o poder destas coisas que as hormonas trazem sem nos pedir licença, rapidamente: sou bonita porque as minhas mamas foram das primeiras a crescer. E e se eu era rabo também, nem valia de muito olharem-me nos olhos; perguntarem-me o gosto e o que quero ser. Nunca lhes falei da minha vontade de ser jornalista. Nunca lhes garanti que iria ser escritora. Porquê? Nunca me perguntaram.

Percebi, depois, que a adolescência acontece a todos e que passando aquele pico de adrenalina de todos os lados, começamos a perceber que a nossa cara ficará com aquelas feições; que os seios não crescem mais. Que somos assim. Podemos não gostar mas até lidamos melhor com a aleatoriedade de fisionomia que nos foi atribuída.

Comecei, até, a receber elogios por causa dos meus olhos: são tão grandes, tão verdes, tão expressivos. São ótimos para maquilhar!

Rio-me. Rio-me sempre que isto acontece; volto à miúda que era e penso:

– Mas ela garantiu-me que são horríveis.

Rio-me de novo; começo a gostar deles. A perceber que são incríveis. Dão luz às minhas expressões e são banhados a mil e uma cores. Tenho sorte em ter saído ao meu pai; são iguais. E eu gosto deles.

Hoje consigo garantir-me que não irei mudar de opinião. Gosto deles e abraço essa certeza da mesma forma que vou tentando dar mimo a outras partes de mim que merecem o mesmo afeto.

Devagarinho, começo a gostar do que vejo e, principalmente, do que não consigo controlar.

Hoje, não a sei odiar. Provavelmente nem se lembra de mim e nem percebe o que fez de errado. Por outro lado, será que eu hoje poderia ganhar um carinho tão grande por eles se ela não me tivesse incutido este ódio? Se ela nunca tivesse decidido, com uma naturalidade alarmante, que me iria fazer ver o pior de mim, poderia eu alguma vez ter transformado isso em algo bom?

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