Efeitos secundários

Falavas comigo entre sorrisos. É um lugar-comum, ao qual já me habituei. Era uma história deliciosa, a tua utopia. Querias tanto torná-la nossa, que até me culpava por não sentir as tais borboletas que te corroíam o corpo.

Sempre me lembrei de ti através das tuas expressões; focas o chão quando estás sozinho, não és o mesmo sem os teus livros de ficção e vives com um medo terrível de perderes a pulseira que a tua mãe te deu.

É através dela que consigo perceber a tua doce mania de seres tu a fazer todas as tarefas de casa, do teu cuidado com os copos que têm de condizer com os pratos da tua avó. É a tua forma de a relembrares, de sentires a presença dela por casa, de apaziguar a mágoa. Nunca encontrei frases de consolo seguidas de um abraço, não sei ser assim.

Na minha cabeça navegam palavras, mas rapidamente um tsunami as atinge e perco a coragem e vontade de as dizer. Talvez não percebas a relação destas duas palavras: vontade tenho muita mas quando é abalada, a coragem não sai da estaca zero. Estaca essa que tende a descer quando estou contigo. Levas, inconscientemente, todas as minhas palavras, articulações, movimentos.

Gostava de saber o  que sou para ti e como me tornei nisto. Ou naquilo. Acabo por não encontro uma explicação científica que só dê espaço para uma conclusão; por isso procurei uma filosófica, mas acabam todas por levar à subjectividade.

Formulei teorias, cheguei sempre à mesma conclusão: não há razão, é irracional. Esmaga o coração, contrai o cérebro, os sentimentos crescem na razão inversa. Posso estar a deixar de fazer sentido, mas é mesmo esse um dos efeitos secundários.

E ainda assim, dizes que gostas de mim?

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