Excelentíssimos Senhores,
Provavelmente já não se lembram de quem eu sou (olhem, sou o processo nº 75382) mas também não sou capaz de focar este email em mim.
Tendo em conta que me garantiram uma resposta no prazo máximo de 7 dias e já passaram semanas, meses e até anos em alguns casos, só posso mesmo concluir que uma parte de vocês faleceu, outra parte mudou de empresa, 9% tornou-se empreendedora digital e outros tantos decidiram que a felicidade mora na apanha da batata no Alentejo.
Aos que faleceram, resta-me compreender. É um ato chato que, até ver, não pode ser emendado. Achei que a nossa conexão seria suficientemente forte para ser convidada para ao velório (foram duas conversas via Skype longuíssimas e com perguntas que nem o meu último date do Bumble se atreveu a fazer), mas também desconfiei imediatamente do vosso falecimento quando procurei em todos os jornais, revistas de especialidade, sites e redes sociais de funerárias da vossa área de nascença e de residência e não vos encontrei — resta-me concluir que as minhas capacidades de pesquisa não são assim tão fortes.
Aos que abraçaram um novo desafio pessoal, espero mesmo que esteja uma péssima experiência. Tudo bem quererem sair de um ambiente tóxico, mas não façam aos outros o que não gostariam que vos fizessem. Isto de ficar a atualizar o email de 5 em 5 segundos à espera de um “Adoramos conhecê-la, mas” é, no mínimo, traumático. Magoem-me logo de uma vez, não aos bocadinhos.
Aos que tiveram uma epifania digital, desejo que fidelizem zero clientes e que a vossa jornada seja recheada de atropelos. Lá porque conseguiram finalmente a vossa independência financeira a trabalhar 30 minutos por dia enquanto bebem caipirinhas nas Maurícias, isso não quer dizer que eu tenha de verificar se guardei ou não o teu número todas as sextas-feiras e ponderar, até, nos dias em que também ingeri bebidas alcoólicas, se vale a pena mandar-vos mensagem ou não. Nota para mim própria: nunca vale.
Aos que só são felizes e compreendidos no campo: há por aí uma vaga?