Parabéns, Vasco

Em 2022, perdemos o Vasco. Mas hoje fazes 33 anos.

Carta ao meu melhor-amigo:

Enquanto não resolvo isto das saudades,

Prefiro que me perguntem por ti.

A ideia de deixar de falar de ti,

Do que te tornava tu e não outro qualquer,

Significaria, sim, um fim.

Enquanto não faço as pazes com a Morte,

Prefiro falar sobre ela.

De como é bela e perversa, de como carrega palavras tão antagónicas dentro dos seus ossos.

Enquanto permaneço zangada com a ousadia do planeta ter continuado a girar quando o teu corpo cedeu,

Prefiro levar o teu nome na boca e o teu lugar no peito.

Em cada história que partilhamos onde és o protagonista, o barulho da nossa gargalhada desafia as leis da física e ultrapassa qualquer barreira de som.

É importante rirmos dos nossos mortos. Senta-los na mesma mesa e perguntar se querem pão. Por isso é que gosto de acreditar que, como diz o poema, passaste só para a sala ao lado. Entraste por uma porta que para nós é invisível mas estás a fazer panquecas. Quer dizer, não tens bananas. Ainda vais ao supermercado. Mais vale esperarmos três horas. 

Quando me levo a passear, conto-te as minhas peripécias, mas também todos os momentos aborrecidos, como problemas com a esfregona. Os amigos merecem saber os problemas com a esfregona.

As saudades, quando não são resolvidas, alagam tudo. Deixam o pensamento submerso e o corpo imóvel, até que, um dia, lá temos de usar a esfregona. 

O balde fica cheio e repetimos o processo até a inércia nos dar um chuto no rabo. 

Deixamos de te ver a soprar as velas há quatro anos, mas sei-te presente na brisa que contrasta com o calor de junho, na sombra que me acolhe em dias em que não sei aceitar a ampulheta e na certeza de todos os saltos quânticos que me aguardam terão, na sua queda e embate, a almofada nuvem de uma amizade que se virou para o céu. Enquanto representante terrestre, deixa-me olhar pra cima e desejar:

Feliz aniversario, Vasco!

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