13 anos depois, regressei à rua onde morei em Atenas. Sou a vítima mais fácil da romantização deste momento, situação que só sobe dois degraus quando me apercebo que tudo se mantém imaculado ao nível da desorganização que testemunhei há mais de uma década.
Na Kallidromiou, a loja de fotografias onde tiramos o nosso retrato ainda está aberta. A loja de videojogos que tresanda a lavagem de dinheiro também. Até a livraria resiste. A polícia ainda tem lá um posto; um dos mais difíceis de manter, diga-se, dada a proximidade do bairro de Exarchia.
Soubéssemos da existência daquele ecossistema com antecedência e tornava-se uma das razões para morarmos tão pertinho dessa zona conhecida por ser, bem, difícil de controlar. Mas claro que a senhoria não poderia avisar-nos de antemão da quantidade de vezes que a nossa rua ia ter caixotes do lixo a arder, pois não?
Em 2013, fomos recebidas em Atenas com a rua onde viríamos a morar cortada, protestos em todas as frentes e uma senhoria que nos explicou a fundo a cena política daquele país enquanto nos oferecia mais cerveja.
Soubesse ela que era essa mesma vontade de resistir e bater o pé que nos fez apaixonar por Atenas, a capital bem longe do branco lavado a lixívia que rodeia a Acrópole e demais zonas turísticas que não testemunham o cinzento do dia-a-dia dos gregos. Sim, eu sei: eles põem-se a jeito, não é?
Acordam já de cigarro de enrolar na boca e café com demasiado açúcar no braço direito. A barba por ajeitar. Mas não vale a pena correlacionar isso com anos de crises sucessivos que arrancam o tapete de um futuro diferente.
Hoje reparei que ainda há mais galerias. Mais cafés. Mais espaços culturais.
Mas também há a praça de Exarchia fechada devido à conveniente construção de uma linha de metro naquela zona.
Seis meses de Atenas mostraram-me que a luta é lá fora rodeada dos teus, dos que não são teus, do que nem se apercebem que estão do teu lado. É feita do inconveniente de passar uma manhã em manifestação, do simbolismo de vozes unidas na mesma cantiga e do testemunho ocular do que a polícia é capaz de fazer perante uma multidão que está, bem, a caminhar.
Reconheço a sorte que foi vivermos Erasmus mais como locais e menos como turistas; guardo como provas (para além do mercado de sábado de manhã à porta e as festas clandestinas na universidade), a raiva, agora sistémica, de uma organização que ganha com a tua dormência.
Não fiz amigos para a vida, mas voltei com um sistema de crenças apoiado no que vi da minha janela.
Hoje, ao comprar o caderno com a bruxa na capa (se me quiserem ver a gastar dinheiro sem pesar prós e contras basta apresentarem-me um caderno), conheci a Elisabete. Viu nas notícias a manifestação no Porto. Gabei-lhes a resiliência ao longo dos anos, como se tivesse outra hipótese. Nunca sei bem o que dizer, mas desarmou-me com o desânimo de ter visto que “bastou uma chuvinha” para o acampamento dos estudantes em Atenas ter terminado. Como se essa coisa da meteorologia pesasse na decisão de fazer frente, não é? Como se o berro coletivo se medisse à água que cai do céu.
Imagino os deuses do Olimpo, ocupados com tarefas maiores como manter a ordem entre o plano terrestre e o que habitavam, enternecidos com o povo que mora abaixo das nuvens.
Agora sei porque é que a democracia se lembrou de lá iniciar os seus ensaios, de como se ganhava tempo a filosofar e de como os contemporâneos continuam a pregar o que lhes está impregnado no sangue.
Grécia, como eu te amo.